O dia em que me arrependi ter saído de casa

Nariz vermelho, corisa, mal estar. Remédio no em uma mão e lenço na outra. Foi assim que a gripe entrou na minha casa neste final de semana e pela primeira vez bateu o arrependimento de morar sozinha.

Chegar sozinha, ficar sozinha e se curar sozinha. Quem nesse mundo consegue se medicar e cozinhar ao mesmo tempo? Me expliquem como é possível cozinhar feijão e assoar o nariz, tudo junto. Ou como conseguir lavar a roupa sem tomar o vento gelado através da janela da lavanderia?

Mãe, hoje senti sua falta. Talvez a gente não perceba no dia-a-dia mas quando estamos gripados na casa da mãe, parece que a doença vai embora até mais rápido. Aquela sopa quentinha já está pronta e ao lado da cama, bem ali na cabeceira já estão prontos todos os remédios: é só colocar o pijama e se deixar ser curado.

Agora, experimente ser o responsável pela magia do trabalho de mãe; o brilho e a alegria de ser mimado vão embora… de que adianta fazer uma sopa se tenho que lavar a louça depois? Cadê a coragem para abrir a torneira da pia gelada quando se tem febre? Passar a bucha com detergente no liquidificador é praticamente algo que não passa nem pelo pensamento.

A cena da gripe quando se vive sozinha é bem menos glamorosa: calças de moletom, meias coloridas por cima da calça e blusa por dentro da calça: tudo isso para impedir qualquer friagem de chegar ao corpo. Cabelos presos, touca para esquentar as orelhas e aquele roupão velho – com bolsos, é claro, para enfiar todos os lenços de papel que couberem. Mas é claro que em algum momento os lenços se transformam em rolos de papel higiênico, porque perdi a paciência de dobrar lencinhos.

Mãe, controla qual remédio a gente toma e qual o horário certo para tomar cada um. Ontem, tomei vitamina, xarope e aspirina em um intervalo de uns 15 minutos. Sopa? Foi miojo mesmo, com o pó de tempero (sabor tomate, pra ser mais natural!) que era o prato mais rápido e fácil para comer entre os intervalos de espirro. Deixei o prato, a panela e a cozinha de lado porque só pensava na minha cama. Claro que eu mesma tinha que arrumar tudo por ali sem me esquecer de estender a toalha de banho, caso contrário teria que me enxugar com uma toalha molhada no dia seguinte.

Deitei e fechei os olhos. Estava começando a ficar quentinha quando tinha me esquecido de um pequeno detalhe: apagar a luz! Sem ninguém para gritar para apertar aquele botão por mim, levantei. E parecia que nevava dentro do quarto: nunca o interruptor me pareceu tão longe e tão frio. Mas enfim, pude deitar no tão esperado silêncio.

Acordei curada! Pensei que não fosse sobreviver mas acho que esta situação é uma daquelas em que só passando para nos deixar mais fortes. E menos mimados.

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    Paulista de sotaque e raízes caipiras. Aquariana, corinthiana, administradora, eterna romântica e dona de casa amante de panos de prato, potinhos e canecas. Um pouco fotógrafa, aprendiz de escritora, cozinheira em evolução e sempre otimista. Dramática e criativa, atravessando os 30 com histórias [quase] normais.

    One thought on “O dia em que me arrependi ter saído de casa

    1. Maria Luiza Goulart Palin

      Coitadinha da minha sobrinha. A pior coisa do mundo é ter febre e ter que trabalhar. Uma mãe faz muita falta mesmo. Mas você já melhorou não é. você descreveu tão bem os seus sintomas, que até eu estava mme sentindo igual a você. Mil bjs.

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